Da margem de cá caio n´água, assumo a posição do nado. É límpida e transparece ainda mansa a água longe do centro. Não afundo, nado, por enquanto nada, é preciso mergulhar pra evitar o assalto das águas, ir mais fundo, já que se faz inútil a braçada contra a corrente que tudo arrasta. Não vai só a correnteza, vai gente com ela, debruçada em troncos antigos, expondo seus dentes, um mais contente que o outro, em mórbido contentamento. Uma moça, de rosto pálido, me acena com a mão que vai junto de um corpo fraco, talvez me conheça. Por algum momento me vi também ser levado e foi por pouco, mergulho fundo, o mais perto que pode alcançar a pretensão de algo profundo, imerso transponho o fluxo, chego ao outro lado, noutra margem, aqui estou a salvo, até que eu ouse atravessar outra vez a corrente sobre as águas.
Monteiro
