sábado, 8 de maio de 2010

Corrente

Da margem de cá caio n´água, assumo a posição do nado. É límpida e transparece ainda mansa a água longe do centro. Não afundo, nado, por enquanto nada, é preciso mergulhar pra evitar o assalto das águas, ir mais fundo, já que se faz inútil a braçada contra a corrente que tudo arrasta. Não vai só a correnteza, vai gente com ela, debruçada em troncos antigos, expondo seus dentes, um mais contente que o outro, em mórbido contentamento. Uma moça, de rosto pálido, me acena com a mão que vai junto de um corpo fraco, talvez me conheça. Por algum momento me vi também ser levado e foi por pouco, mergulho fundo, o mais perto que pode alcançar a pretensão de algo profundo, imerso transponho o fluxo, chego ao outro lado, noutra margem, aqui estou a salvo, até que eu ouse atravessar outra vez a corrente sobre as águas.



Monteiro

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Consumo

Consumo um trecho dum livro, atentos os olhos percorrem pontos, letras, sinais diversos, escorre de um deles uma lágrima, não de contentamento ou lastima, só o sinal da fadiga. Uma pausa, aproveito pra refletir sobre trecho lido e percebo que assimilei pouco, quase nada, sinal de sono. Volto à leitura apesar do enfado.
Um traiçoeiro inseto me aperreia os tímpanos, na tentativa de livrar-me da inconveniência acerto o ar em cheio com as mãos unidas paralelas ao ouvido. Não bastasse o zumbido do inseto me consome o tinido do tapa, tamanha a força dispensada. Como se de uma peleja saísse invicto pousa em algum lugar do meu corpo e me consome o sangue.
As importunações me consomem, os ruídos agora me consomem, ladrar de cães, pingos de água na água, tique taques e outras onomatopéias, consumo eu a elas todas, o roncar do estômago me consome, consumo agora um pão, queijo, leite, e ainda sinto fome, engulo a gula, consumo a gula e me consome a fome, o sono me consome.

Hugo Monteiro.

domingo, 28 de março de 2010

Um Certo Olho Mágico


Durante a vida, são raras as vezes que paramos para observar ela passar, lenta por nós. Pelo buraco da fechadura descobre-se que o tormento pode estar a um palmo do nariz. Soando muito confuso, quase nada se vê, após a porta aberta, percebe-se que não há nada ali, nada passaria por ali, se não alguém que não faz questão alguma em passar. Eis que existe o olho mágico, se sente importante sempre quando se depara com um motoboy segurando uma pizza e uma coca cola bem gelada numa noite qualquer, contemplando uma felicidade alheia. Jogar o tempo no olho e perceber o pedaço de vida que se desfaz do outro lado da rua tem sido encantador.

Foto e texto - José de Holanda.
 
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